Pequenos e intrépidos diálogos cotidianos de Tranqueira e Estrupício – O amor, anos mais tarde

Texto inspirado em um dos diálogos cotidianos entre Dom Luiz e Dona Olga, avós da Tranqueira. Duas figurinhas, coladas bem perto uma da outra há mais de 50 anos.

Tem banana, quer laranja? Diálogos entre Olga e Luiz

“Olga…”

Silêncio.

“Olga…”

Respiração profunda.

“Olga…”

“Ah! O que foi, Luiz?”

“Tô com fome. A gente não vai tomar café?”

“São quase duas da tarde. Você já tomou café. Logo vai ter almoço!”

“Ah, tá!”

Silêncio.

“Olga…”

“O quê?”

“Essa minha fome é de almoço?”

“Eu sei lá do que sua fome é? Faça-me favor!”

“O que vai ter pra janta?”

“Mas nem almoçou e já tá pensando em jantar?”

“Almocei?”

“Ahn?”

“A gente almoçou, não almoçou?”

Respiração profunda.

“Não, Luiz. A gente tomou café. O almoço vai sair já, já. O jantar é só mais tarde.”

“Ah, tá.”

Silêncio.

“Ontem à noite teve sopa. Não quero tomar sopa hoje.”

“Eu aviso a Nana que você não quer sopa. Acho que ela vai fazer pastel.”

“Oba! Vai ter pastel pro almoço?”

“Não! Ela vai fazer pastel mais tarde, pro jantar. O Pancho tá fazendo macarronada.”

“Mas macarronada não é comida pra comer de manhã. Quero café e pão com manteiga.”

“Eu vou ficar louca desse jeito!”

“O que eu fiz?”

Respiração profunda.

Silêncio.

Respiração profunda.

 

“Luiz, preste atenção. Nós comemos pão e tomamos café de manhãzinha, vamos comer macarronada agora no almoço e mais tarde, bem mais tarde, a Nana vai fazer pastel pra comermos no jantar. Entendeu?”

“Ah, tá.”

“Entendeu?”

“Entendi.”

“Podemos assistir à novela?”

“Podemos.”

Silêncio.

“Olga…”

“Pelo amor de Deus! Eu não aguento mais! O que foi?”

Silêncio.

“O que foi, Luiz?”

“Te amo.”

“Ah, vê se vai tomar no cu!”

Tem banana, quer laranja? Diálogos entre Olga e Luiz


A série “Pequenos e intrépidos diálogos cotidianos de Tranqueira e Estrupício” pretende resgatar e ilustrar aquelas conversas rotineiras, que muitas vezes destinam-se ao esquecimento e passam desapercebidas, mas que no fundo fazem parte fundamental da construção de uma relação e do amor. 

 

Gabriel Souza
Ser adorável, de poucas palavras e muitas frases de efeito, este jovem taubateano de nascença e cigano por opção, tornou-se Geógrafo por (des)acaso e mercador nas horas vagas. Dono de uma capacidade sem igual para reter bobagens na memória e um deleite peculiar por piadas sem graça, adora as vídeo cassetadas do Faustão, se perder nos mundos paralelos da literatura e nunca recusa uma boa partida de Magic.
  • Rosana Pileggi Ochoa

    Obrigada estrupício, bela homenagem. bjs

  • Francisco Ochoa

    Muito bom, muito da Olga e Dom Ciccillo (Dom Luiz).