Pequenos e intrépidos diálogos cotidianos de Tranqueira e Estrupício – O amor, anos mais tarde (Round 2)

Mais um diálogo inspirado em avós. Dessa vez, os meus: Dona Terezinha e Seu Lolito. Já falecidos, mas sempre lembrados com muito amor, especialmente naqueles causos nostálgicos e hilários contados e recontados por quem teve a felicidade de estar por perto.

Habitar as recordações dos que ficam pode ser a maior vantagem de ir. Talvez seja esse o intuito desse negócio estranho que é começar uma vida a dois e terminar como dois velhinhos birutas cheios de histórias para contar e serem contadas. Não seria ótimo?

Bom, vamos lá. Para mais uma história de amor…

Apresentando Dona Terezinha e Seu Lolito:

“Lolito, você se lembrou de buscar as crianças na escola?”

“Lógico que lembrei, Terezinha!”

“Então por que elas não estão aqui?”

“Posso entrar em casa antes do interrogatório? Hoje não é dia de almoçarem conosco. Deixei os dois em casa, com a babá.”

“E a mãe?”

“Ainda não chegou do trabalho.”

“Hum.”

“Hum o quê? Posso saber?”

“Você perguntou para a babá se eles tinham almoço?”

“Segundo ela, a Nira não pediu para preparar nada. Acho que vai comprar na rua.”

“Você olhou a geladeira?”

“Por que diabos eu faria isso, Terezinha?”

“Hum.”

“Não, eu não olhei. Tá feliz agora, meu AMOR?”

“Estaria se você tivesse olhado.”

“Eu mereço mesmo, viu? Vou ao banheiro lavar o rosto e já volto para almoçarmos.”

“Aproveite e tome um banho. Você está fedendo.”

“O quê? Fedendo? Tomei banho de manhã.”

“A Dejanira disse que você estava cheirando muito mal quando foi buscar as crianças ontem.”

“Que palhaçada é essa?”

“Foi o que ela disse.”

“Vou lá tirar satisfação com ela agora mesmo.”

“E depois traga as crianças para almoçar.”

“Terezinha, eu não acabei de dizer que hoje não é dia de comerem aqui?”

“Que dia é hoje, Lolito?”

“Terça.”

“Quarta.”

“Quarta?”

“Quarta.”

“Ai, meu Deus! Hoje é quarta! É por isso que a babá estava surpresa e não tinha preparado nada.”

“Hum.”

“Tá, eu sei, Terezinha, fiz cagada. Vou concertar isso agora.”

“Passe na casa da Cristina e busque também o Pedro.”

“Você já falou com ela?”

“Aquele menino largadinho não tinha nada para comer.”

“Tá, mas você falou com ela?”

“Não, falei com o Pedro. Ele me ligou mais cedo.”

“Mas ele é só uma criança, como ele pode saber o que tem ou não na dispensa pra comer?”

“Disse que faltava um monte de coisas: Danoninho, bolacha, Toddy. Pediu até um par novo de chinelos para a empregada.”

“Deus do céu, Terezinha! Tá, eu busco o Pedro também.”

“Leve a caixa de mantimentos que comprei para ele. Está na mesa da cozinha.”

“Tudo bem.”

“Ao lado deixei um par de cartas que devem ser postadas no correio. Já que está saindo, faça-me também esse favor.”

“Jesus Cristo! Algo mais?”

“Deixei uma marmita para darmos ao porteiro. Está na geladeira.”

“Ok.”

“Acabou o refrigerante. Compre uma garrafa no mercado.”

“Ok.”

“Os resultados do seu exame estão prontos. Busque no laboratório.”

“Ok. Mais alguma coisa?”

“Tome um banho.”

Respiração profunda.

“Tá. Vamos lá. Deixe-me ver se tenho tudo em mente. Você está me pedindo para tomar um banho, levar a marmita do porteiro, postar as cartas no correio, comprar refrigerante, buscar o Gabriel e a Laura, deixar a caixa de compras na casa da Cristina e pegar o Pedro?”

“Não se esqueça dos exames.”

Respiração profunda.

“Terezinha, onde está o espanador?”

“Espanador?”

“Sim, o espanador.”

“Por qual motivo você quer isso agora?”

“Pra que eu possa enfiar no rabo e sair varrendo a casa enquanto faço o tudo o que me pediu.”


A série “Pequenos e intrépidos diálogos cotidianos de Tranqueira e Estrupício” pretende resgatar e ilustrar aquelas conversas rotineiras, que muitas vezes destinam-se ao esquecimento e passam desapercebidas, mas que no fundo fazem parte fundamental da construção de uma relação e do amor. 

 

Gabriel Souza

Ser adorável, de poucas palavras e muitas frases de efeito, este jovem taubateano de nascença e cigano por opção, tornou-se Geógrafo por (des)acaso e mercador nas horas vagas. Dono de uma capacidade sem igual para reter bobagens na memória e um deleite peculiar por piadas sem graça, adora as vídeo cassetadas do Faustão, se perder nos mundos paralelos da literatura e nunca recusa uma boa partida de Magic.

  • Francisco Ochoa

    Linda historia, parabéns.

  • Dejanira

    Racheeeeeeeei de rir agora!!!!! Rsrs
    E deixo bem claro, mesmo depois de 20 anos que NUNCA disse que o Seu Lolito estava fedendo. D. Therezinha sempre fazia umas intriguinhas e colocava palavras em nossas bocas para convencer o Lolito a fazer o que ela queria e não é que ele caía?!! Saudaaades desses dois…….
    Bem real essa história!Muito bom!!