Novo ano, para que te quero?

Pobrezinho de dois mil e dezesseis, o novo patinho feio.

Foram-lhe atribuídas tantas desgraças…

O coitado tornou-se culpado das marcas do tempo, vítima de nosso espirito saudosista – aquele que protagoniza a frase “no meu tempo…” e que nos ludibria com a camuflagem que faz na nossa memória.

2015 e os anos anteriores, adoraram. Ficaram com a barra limpa.

Mas estou aqui em sua defesa, meu querido.

Ruim não é você e sim a forma como nós levamos a vida. O modo como não conseguimos lidar com as consequências das nossas escolhas e dos imprevistos.

Culpamos o ano. Culpamos o tempo. Culpamos o azar. Culpamos os outros. Culpamos a vida.

Por que não? É tão mais fácil.

01 de janeiro.

O único dia em que quase todo mundo do planeta faz uma pausa.

Dá um reset.

“Logo eu”, que não sou muito apegada a datas comemorativas, sempre me deixei seduzir pela magia do Ano Novo.

Hoje entendo o motivo.

O começo desta nova jornada sempre me fez sentir menos esquisita. É um tempo onde os metódicos e organizados não estão tão sós, rs. A maior parte das pessoas está imbuída nesse espirito renovador que a virada traz, fazendo listas e (re)programando a vida.

Aí os dias continuam a passar, a vida acontece, como sempre faz, e muitas coisas ficam para depois ou nunca.

Ao notar isso, desta vez quis fazer diferente.

Não adicionei nenhum item em lugar algum. Não me fiz promessas surreais que depois vão me gerar frustração. Sem deixar de tê-lo, apenas revisei e removi muitas coisas do meu planejamento.

Olhei para trás e parei. Repensei. Contemplei. De certa forma, me libertei.

Afinal, de que adianta criar check-lists elaborados e nos preencher de desejos, se não somos capazes de notar o que já temos ou somos?

Mais uma vez, completos os 365 dias, culparemos o ano, esse bicho feio, como se ele tivesse nos guiado pelo caminho errado.

Novo ano, para que te quero?

Essa foi a pergunta que me fiz logo depois de processar esse mundaréu de pensamentos.

Sem pretensão de ter a resposta certa, decidi que desta vez quero um novo ano para não culpá-lo ou desculpá-lo.

O quero para me ensinar que não são os números e sim a vida construída, a cada dia, que moldam o que nos tornamos e como somos capazes de lidar com acontecimentos, ora planejados, ora sequer imaginados.

Ano novo, quero você para saber discernir entre o essencial e o supérfluo. Para reconhecer logo de cara aquilo que me faz sorrir e aprender a deixar pra lá o que não me traz alegria. Para ser mais leve.

Te quero para saber valorizar e relembrar as coisas boas que você também carrega e nos dá. Para não esquecê-las quando estiver triste ou desgostosa. Para me exigir menos e entender a perfeição como um conceito relativo. Para criar menos expectativas.

Acima de tudo, te quero de braços abertos, sem a espera do teu sucessor para torná-lo um novo vilão, sabendo que o tempo é contínuo e as pausas servem, primordialmente, para reflexão.

A vida acontece hoje. Agora. Amanhã ou depois já não sabemos mais. Afinal, é de instantes que somos feitos e é por eles que devemos nos responsabilizar.

Não?

Camila Ochoa

Sou fruto de uma mistura latina Brasil-Chile embalada ao som de Rita Lee. Trágica desde os primórdios, coleciono 28 amarelados outonos. Formada em Turismo, freelancer e curiosa nata por outras orbes, virei tarada por home office, organização, decoração, pechincha, empirismo, livros, comilança, viagens, fotografia, filmes e séries de TV. Quanto ao resto, geralmente não passo de um conjunto de várias coisas clichês, mas de vez em quando consigo ser original.

  • Francisco Ochoa

    Bonito texto,siempre sorprendiendo hijita

    • Camila Ochoa

      Gracias, papi!

  • Rosana Pileggi Ochoa

    Lindo texto e muito sábio, deixa a vida me levar vida leva eu. Parabéns tem banana quer laranja. bjs

    • Camila Ochoa

      Obrigada! <3

  • Dejanira

    Muito bom o texto, Camilinha!!! E a cada ano, seremos sempre um eterno aprendiz!!!bj

    • Camila Ochoa

      Muito obrigada, Nira! 🙂
      Com certeza